
Desabafo de um trem da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) para com seu presidente.
Querido Presidente:
Certa vez eu estava muito magoado porque um trem do metrô me contara que os colaboradores da companhia do metropolitano me chamavam abertamente de "o primo pobre". O senhor há de concordar que é muito doloroso ser chamado de pobre, não é? Ademais, ainda ser chamado de primo, um parente de segundo grau! Por que não irmão?
Bem, eu sabia que possivelmente teria meu sofrimento aumentado, mas decidi investigar as rozões pelas quais eu era chamado de "O Primo Pobre". E, chorando, fui gradativamente descobrindo coisas que o senhor talvez não saiba. Caí até em depressão!
Descobri que no Metrô ninguém fuma nas estações, nem no interior dos trens; não há sujeira por lá; não tem essa história de ficar aguardando liberação de sinal por até 50 minutos; e o maquinista do metrô avisa aos passageiros o que acontece quando o trem pára; no metrô, o intervalo dos trens nunca ultrapassa os 5 minutos; os trens do Metrô, embora também já velhos, não fazem barulho igual pau-de-arara cheio de retirantes em estrada carroçal; lá, quando o maquinista anuncia a próxima estação (ou qualquer outra coisa), o som não agride os ouvidos dos usuários.
Eu pensava que me chamavam de "O Primo Pobre" por pura maldade, mas percebi que os funcionários do Metrô tinham razão. Eu realmente sou um desastre, um mau exemplo no transporte. É só o Senhor pensar que sou o oposto do Metrô em aspectos de qualidade e poderá comprovar minha tese. Mas eu quero que o Senhor saiba, Presidente, que eu não queria ser assim. Inclusive, meus colaboradores fazem tudo para que eu seja melhor; a CPTM também tem feito alguma coisa. Veja.
Meus funcionários tratam bem os idosos, as mamães e bebês, os deficientes...São educados com os passageiros em geral e até ouvem suas críticas, mas não podem fazer muita coisa. Eu ganhei novas estações, bem equipadas, onde posso parar e ouvir elogios. Há até seguranças dentro de mim para manter a ordem! Mas quando eles saem... Ah, como o povo apronta...
Enfim, presidente, lhe faço essa queixa não porque eu queira ser igual ao metrô (e nem quero ser, porque o metrô é igual a tatu, que anda debaixo do chão. Eu tenho medo do escuro! Gosto mesmo é de andar sobre e a terra, sentir e respirar o ar poluído de São Paulo). Mas eu quero ter qualidade, fazer feliz meus passageiros, andar com rapidez nos trilhos, ouvir elogios, caminhar por mim mesmo e alegrar meus maquinistas - coitados, eles quase me levam nas costas! Eu sou tão pesado...
Então, Senhor Presidente, por favor, faça algo por mim. Torne-me mais confortável. Eu não agüento mais ser chamado de O PRIMO POBRE.
Trem da linha 12
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